Wenceslau de Moraes,
oficial da Marinha.

Moraes e Camilo Pessanha,
Hong Kong, 1895.

Consulado de Portugal
em Kobe, 1911.

Kobe, Japão, 1964.

Wenceslau de Moraes – Autorretrato

Wenceslau de Moraes é o responsável pelos mais belos textos sobre o Japão, suas gentes, paisagens e artes. A sua peregrinação por terras da Ásia leva-o até ao país que adota como pátria e seu paraíso terrestre, o Dai-Nippon – o Grande Japão.

Em 14 de fevereiro de 1928, Wenceslau de Moraes escreve uma carta a Yanazi Wara, um japonês que lhe tinha solicitado a sua autobiografia:

«Consta-me pelo amável intermédio do Ex.mo Sr. Twamoto, meu vizinho em Tokushima, que V. Exa. deseja um ligeiro resumo da minha vida publica. Satisfaço o seu desejo. Sou portuguez. Nasci em Lisboa (a capital do país) no dia 30 de Maio de 1854. Estudei o curso de marinha e dediquei-me a official da marinha de guerra. Em tal qualidade fiz numerosas viagens, visitando as costas da África, da Ásia, da América, etc. Estive cerca de cinco annos na China, tendo ocasião de vir ao Japão a bordo de uma canhoneira de guerra e visitando Nagasaki, Kobe e Yokoama.

Em 1893, 1894, 1895 e 1896 voltei ao Japão, por curtas demoras, ao serviço do Governo de Macao, onde eu estava comissionado na capitania do porto de Macao. Em 1896, regressei a Macao, demorando-me por pouco tempo e voltando ao Japão (Kobe). Em 1899 fui nomeado consul de Portugal em Hiogo e Osaka, logar que exerci até 1913.

Em tal data, sentindo-me doente e julgando-me incapaz de exercer um cargo publico, pedi ao Governo portuguez a minha exoneração de official de marinha e de consul, que obtive, e retirei-me para a cidade de Tokushima, onde até agora me encontro, por me parecer logar apropriado para descançar de uma carreira trabalhosa e com saude pouco robusta.

Devo acrescentar que, em Kobe e Tokushima, escrevi, como mero passatempo, alguns livros sobre costumes japoneses, que foram benevolamente recebidos pelo publico de Portugal.»

Para Wenceslau de Moraes, o futuro traria um homem enriquecido pelas culturas ocidental e oriental, um homem inteiro, que viveria numa civilização universal, planetária. Será, no entanto, na intimidade de uma pequena cidade de província, Tokushima, que Moraes sofrerá a angústia de não poder conciliar as duas civilizações. Come arroz, recusa cadeira e pão, vive uma experiência singular. Julga o Ocidente decadente e prevê um Japão forte e a ascensão da Ásia. Despreza a civilização materialista do Ocidente, revoltando-se inclusivamente contra a religião cristã.