Armando Martins Janeiro, O Teatro de Gil Vicente e o Teatro Clássico Japonês

Portugália Editora, Lisboa, 1967

OTeatro de Gil Vicente e o Teatro Clássico Japonês foi publicado em 1967 e teve traduções para inglês e japonês. Esta obra inclui um ensaio que aproxima o teatro de Gil Vicente do teatro clássico japonês e uma versão alargada e melhorada de Nô, Teatro Lírico Japonês, que Janeira publicara em 1954. O autor, que sempre considerou Gil Vicente como o seu mestre na dramaturgia e que por ele se deixou influenciar nalguns dos autos que escreveu e deixou inéditos, bem como na peça A Grande Feira do Mundo, publicada pela Ática em 1967, demonstra neste estudo como a combinação do real com o irreal, que tem sido o grande problema do teatro, é resolvida por processos muito semelhantes nas peças de Gil Vicente e no teatro clássico japonês, sobretudo no . Esses processos, com o seu poder de encantação e sugestão de um mundo poético e maravilhoso através dos mitos e símbolos, traduzem-se numa extrema simplicidade.

«Útil seria a experiência do Kabuki a um teatro tão rico de elementos variados como o vicentino, cuja galeria de figuras é imensa, incluindo algumas tão ricas de sugestões, para um encenador imaginativo, tais como os Ventos, o Mar, o Sol, a Verdade, a Justiça, o Inverno e o Verão, as Serras, o Tempo; cuja gama de recursos cénicos admite o ladrar dos cães, os gatos que miam, galos que cantam, corvos que crocitam, a introdução de animais no palco, etc. Este último meio consegue no Kabuki efeitos ricos de comédia porque os animais são sempre representados por pessoas que usam disfarces estilizados e apropriados para fazer rir.

Esta riqueza e variedade de meios e processos mostra, no Kabuki, uma opulência incomparável em nenhuma outra cena do mundo. Por isso Sergei Einsenstein chama ao Kabuki «o mais notável fenómeno da arte teatral». Neste aspecto, o Kabuki oferece valiosas sugestões à encenação vicentina, sobretudo das comédias e farsas. No Nô, tal encenação pode apontar sobretudo a simplicidade e elevação do estilo, a nobreza hierática própria a certos autos e figuras.

Trazer o espírito da obra vicentina para a sensibilidade de hoje, deve ser a principal preocupação de um encenador moderno. Isto, porém, sem a empobrecer na modernidade, dando-lhe por fundo cenários sem o cunho do tempo, procurando exprimir, através das figuras, a intemporalidade e permanência da sua verdade humana, evitando o historicismo, extraindo, vivos, do texto, todos os valores que lá estão, através duma linguagem cénica que, como no tempo de Gil Vicente, compreendia todos os meios de um teatro total – o verbo, a música, a dança e a mímica.»

Armando Martins Janeiro, O Teatro de Gil Vicente e o Teatro Clássico Japonês

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