Armando Martins Janeira, Linda Inês ou O Grande Desvairo

Pássaro de Fogo Editora, Lisboa, 2005

Aguarela de Paulo Ossião, 2005.

Linda Inês ou O Grande Desvairo é uma nova versão da peça que Armando Martins Janeira publicou em 1957. Aqui, o autor oferece-nos um dos mais belos textos que retratam o drama de amor de Pedro e Inês. Aproximando-se dos factos históricos, conta-nos a verdadeira tragédia de Inês de Castro numa linguagem realista e profundamente humana, através de diálogos de grande força dramática.

«Uma lenda antiga numa forma moderna, para ser amada pelos homens livres do meu tempo e dos tempos assombrosos que vão nascer.»

Armando Martins Janeira

Há coisas a que nem Deus, que as criou, pode pôr termo.

(Inês para Afonso, Acto Primeiro)

Ninguém se salva sem amor. O amor é a força que revolve o mundo – e eu estou cheio dessa força de revolta. Quereis que renuncie ao amor. Porque não renunciais vós ao poder? É o mais belo acto que um homem pode praticar – renunciar ao poder.

(Pedro para Afonso, Acto Primeiro)

Portugal é um barco, metade ainda sobre a areia, metade a balouçar já sobre as vagas, fascinado pelo oceano. Um dia partirá para a longa viagem temerosa em que vai perder ou ganhar para sempre o seu orgulho. Cinco gerações de reis a vêm preparando. As árvores, que hão-de ser naus um dia e lavrar oceanos, são tenras e delgadas ainda, e as gerações de homens ousados, que vão passar abismos e terras novas abrir, hão-de nascer ainda do mistério do futuro. A mim e a ti, cabe-nos apenas preparar o terreno para a obra formidável. É modesto o nosso papel, mas sem nós como haviam de abalançar-se os vindouros a ir até aonde hoje só o nosso sonho alcança?

(Afonso para Pedro, Acto Primeiro)