Armando Martins Janeiro, Figuras de Silêncio – a Tradição Cultural Portuguesa no Japão de Hoje

Junta de Investigações Científicas do Ultramar, Lisboa, 1981

Janeira com o escritor japonês Shusaku Endo, em 1968

Figuras de Silêncio – A Tradição Cultural Portuguesa no Japão de Hoje é uma das últimas obras que Janeira publica. Aí tece considerações sobre a sua vida, a título de confissão, projetando-a num mundo dividido em Ocidente e Oriente. A ponte que uniria as duas civilizações tomou forma através de homens como Jorge Álvares, Francisco Xavier, Fernão Mendes Pinto, Luís Fróis, João Rodrigues, Luís de Almeida, Diogo de Carvalho ou Wenceslau de Moraes. E são eles as “figuras de silêncio” desta obra única dedicada aos grandes portugueses do Japão.

A reativação das relações culturais luso-japonesas no século XX deve-se quase exclusivamente a Armando Martins Janeira, cuja obra contribui não só para a recuperação da imagem de Portugal no Japão, através da divulgação da língua e da cultura portuguesa, mas também para a difusão e a incrementação do interesse pelo estudo da cultura e da civilização oriental. Figuras de Silêncio é dela testemunho.

«A praia onde os Portugueses primeiro desembarcaram fica em Nishimura Ko-ura. É uma longa fímbria de areia branca entre a manta verde da terra e o espelho azul do mar. Contemplei-a do cimo dum castelo de rochedos altíssimos, erguidos contra os ventos do largo, e de cuja altura se desfruta um panorama admirável sobre o oceano infinito. A este abrigo veio dar o junco dos portugueses, impelido por uma tempestade, talvez um dos tufões terríveis que no fim do Verão, princípios do Outono, costumam assolar o Japão, espalhando devastações e mortes. No alto dos rochedos foi, em 1927, levantada uma pedra rústica, de uns três metros de altura, com uma inscrição japonesa relativa à introdução da espingarda – teppo –, sem alusão aos Portugueses. Há ainda um pequeno templo xintoísta e uma estela de cimento com uma inscrição dedicada aos mortos da última guerra – a todos os mortos. É curioso notar que todos os monumentos aos mortos desta guerra que se vêem no Japão são dedicados a todos os mortos, de todos os países, incluindo os inimigos. Admirável sentimento humano do país mais patriótico de todos, que aboliu os ressentimentos do patriotismo e quer lembrar e despertar apenas o sentimento de amor-dos-homens, da irmandade na morte. É um novo sentimento de humanidade, que finalmente começa a dealbar na consciência dos homens e a substituir o antigo culto militar dos heróis e do nacionalismo estreito. (...) Além do estranho aspecto dos Portugueses e das suas bárbaras maneiras de comerem com os dedos, do modo ruidoso e emotivo como falavam, o que mais chamou a atenção dos Japoneses foi as espingardas que traziam. O senhor da ilha, Tokitaka, compreendeu imediatamente o seu extraordinário valor no Japão militar, e pensou: «Isto é um tesouro singular que não tem igual na Terra.» Chamaram-lhe teppo, nome que ainda persiste e que teria valor decisivo no futuro do Japão, dando a vitória aos senhores que compreenderam o alcance da nova técnica e a introduziram nos seus exércitos.»

Armando Martins Janeiro, Figuras de Silêncio – a Tradição Cultural Portuguesa no Japão de Hoje

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