Armando Martins Janeiro, Caminhos da Terra Florida

Manuel Barreira-Editor, Porto, 1956

Estampa de Utamaro,
apreciado por Janeira

Armando Martins Janeira escreve Caminhos da Terra Florida - A Gente, a Paisagem, a Arte Japonesa, durante o período em que é colocado no Japão como encarregado de Negócios. Publicado em 1956, é um livro delicioso, de alguém que se enamora pelas terras do Sol Nascente e nos fala apaixonadamente da realidade japonesa: das gentes e dos deuses, das artes e das tradições, de um povo que dança, ri, canta e celebra as belezas do mundo. É um Janeira fascinado, ansioso por partilhar com os leitores do seu país a sua experiência no Japão. O autor conheceu depois mais mundo, mas confessará ali ter vivido os dias mais felizes da sua vida.

Caminhos da Terra Florida é um livro revelador do entusiasmo inicial e do impacto que a civilização oriental provoca num europeu. No entanto, o convívio de mais de dez anos que Janeira estabelece com o Japão fá-lo-á confirmar-se cada dia mais na sua cultura ocidental, na sua qualidade de europeu: a civilização ocidental, ainda que decadente, é para Janeira a maior das civilizações vivas, pois é ela que contém o germe do progresso histórico.

«É no cume do Fujiyama que habitam os velhos deuses nipónicos. O Fujiyama, a montanha mais alta do Japão, é o Olimpo da religião japonesa, sólio sagrado do xintoísmo. Só quem tenha contemplado de longe o majestoso cume, duma pureza e elegância de linhas como nenhuma outra montanha, os imensos contrafortes brancos doirados pelo Sol, pode compreender o que representa o Fuji na história e na lenda do Japão e na imaginação de cada japonês. Além da sua beleza invulgar, a atracção do Fuji provém dos seus caprichos, ora exibindo magnífico a sua esbelta majestade, ora, logo um instante após, escondido entre nuvens, o vulto esfumado e suspenso do céu, etéreo como uma miragem. Os japoneses do campo, ainda hoje, ao vê-lo, ajoelham e erguem as mãos aos deuses. Quando o comboio passa no sopé do Fuji, é um reboliço pelas carruagens, e as velhas mulheres piedosas batem duas vezes as palmas religiosamente. Há grandes pintores que dedicam uma vida inteira a pintar exclusivamente quadros do Fuji-san.

Não admira pois que, impressionado por esta aura, a minha ambição, desde que cheguei ao Japão, fosse pôr os pés no cimo da montanha sagrada.»

Armando Martins Janeiro, Caminhos da Terra Florida

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